Eu não serei nenhum Freud da vida (porque não estou em Viena em 1890)

Eu estava assistindo uns vídeos sobre o caso Schrber e dei conta de ficar ansioso com isso.

Calma, vou explicar.

O vídeo era do Dunker, e ele contou que o Freud analisou o caso com base em um autorrelato do Schreber que serviu como peça jurídica para que ele conseguisse seu trabalho de juiz de volta. O texto foi publicado em livro, o Memórias de um Doente dos Nervos, de 1903.

Era 00:13 da noite, e comecei a pensar que talvez eu pudesse fazer minha análise do caso Schreber. É uma oportunidade interessante de produzir um texto que relaciona coisas que eu me interesso, como psicose, psicopatologia e o efeito de pressões sociais no comportamento, tudo com base na Análise do Comportamento.

Me animei, que legal que vai ser escrever esse texto, eu pensei. Vou ler o livro do Schreber, depois da análise do Freud, depois análises complementares, terminar o livro do Foucault que eu tô lendo, depois aprender sobre a sociopolítica da Alemanha e da Europa no início do século XX, e aí escrever um texto incrível e revolucionário.

Espera, que amontado de coisa, né? Aí a dona ansiedade apareceu. Como eu iria me manter empenhado em uma tarefa tão complexa ao mesmo tempo em que cuido dos meus atendimentos, dou atenção para minha família, minha namorada e meus amigos e cuido de mim mesmo e dos meus hobbies?

Eu poderia começar a escrever agora, mas me dei conta que o faltaria muita coisa para eu escrever do jeito que eu quero, porque esse tipo de coisa você precisa saber muito sobre o que você escreve. E “muito” é uma palavra vaga que muitas vezes quer dizer “sempre mais do que você pode fazer”.

Perdi o sono, por um momento me achei muito limitado, me cobrando por não conseguir cumprir com tudo que eu quero. Ai eu me toquei do quanto eu tava sendo bobo. “Você já teve essa crise antes”, falei para mim mesmo.

Sim, 4 anos atrás lendo um livro do Koffka, fiquei triste por me dar conta que jamais escreveria algo tão bom. Mas na época, mergulhado no estudo de como a nossa vida como um todo deve ser considerada para entender nosso comportamento, me dei conta que a grande diferença do contexto meu e do Koffka explicava nossa grande diferença em conhecimento e habilidade de escrita.

Não estou dizendo que grandes obras e discussões teóricas são impossíveis no séc. XXI (talvez esteja mais difícil de acontecer), mas sim que o tempo de cada pessoa é finito, então se dedicar muito a uma atividade depende de necessariamente diminuir a dedicação em outras. Nesse momento, e a 4 anos atrás, eu precisei entender que não conseguir fazer o texto que eu gostaria não representava necessariamente que eu estivesse fazendo algo errado, mas sim que o contexto atual do meu comportamento elenca outras prioridades.

E você, já se perguntou se essa coisa que você está se cobrando cabe mesmo na sua vida?

Uma grande obra, um corpo magnífico, perícia nos seus hobbies, quantias exorbitantes de dinheiro. Todas essas coisas parecem ser ótimas, mas precisam de contextos muito favoráveis para acontecerem.

Considerando as possibilidades da minha vida, entendi que o melhor é me dedicar a ser mediano na maioria das coisas, em benefício da minha tranquilidade e satisfação.

Postado originalmente no Medium, em 26 de abril de 2023.