Sempre vejo por aí a frase “a depressão é uma doença”, comparável a uma diabete, ou uma doença cardíaca. Na maior parte das vezes, quem diz isso está carregado de boas intenções. É uma forma de dizer que a pessoa não é responsável pelo que tá se passando com ela, e logo não tem controle sobre sua melhora, então não deve ser forçada ou exigida a se comportar de uma maneira que não a depressão.
Parece uma posição correta, visto que a depressão está descrita nas classificações internacionais de doenças, produz limitações relevantes tal qual as outras doenças, está mais ou menos relacionada com algumas alterações corporais, e responde ao uso de medicamentos.
Resumindo, nessa visão, a depressão (e outras “doenças mentais”) são doenças do mal funcionamento do cérebro, e produzem sintomas mentais (alterações de comportamento, motivação, emoções e etc), tal qual outras doenças atacam outros sistemas do corpo e produzem sintomas nos funcionamento dos outros órgãos.
Apesar da popularidade dessa conclusão, Thomas Szazs (1920–2012), psiquiatra e escritor húngaro, um dos grandes nomes do movimento anti-psiquiatria (com livros e artigos com teses tão interessantes e polêmicas que jamais caberiam aqui), defende veemente a posição de que não existem tais coisas como doenças mentais.
Partindo das ideias do Szazs, quero dividir com vocês nesse texto alguns questionamentos sobre o uso do termo doença para definir a depressão, e também na definição dos chamados transtornos de personalidade, em um próximo texto. Espero conseguir demonstrar também as implicações práticas dessa noção.
A depressão como uma entidade explicativa
A ideia mais geral da depressão é explicar porque uma pessoa está se comportando de tal forma. Um uso comum é dizer, por exemplo, “aquela pessoa chora, está desanimada, não consegue sair da cama porque está com depressão”. Nessa visão o diagnóstico tem status de causa. É uma entidade que explica o que alguma pessoa faz. No passado esse mesmo tipo de entidade explicativa aparecia com nome de divindades e outros tipos de mitos.
Um primeiro problema nesse uso da palavra depressão é que resumir a depressão em uma mera doença que “causa” uma série de comportamentos acaba negligenciando os reais determinantes (externos) a ela. A ideia de que alguém está em sofrimento simplesmente porque tem depressão faz a gente parar a avaliação ai, deixando de descobrir o que de fato aconteceu.
Um outro problema se resume no questionamento: como a depressão supostamente faria isso? Qual a natureza do fenômeno depressão e como ele consegue fazer uma pessoa agir de tal forma? A resposta de algumas pessoas é dizer que a depressão é uma doença do sistema nervoso, do cérebro. Porém, seguindo na influência do Szazs, essa resposta é limitada, e pode estar equivocada no seu princípio.
A depressão como uma doença do cérebro
É comum que a depressão seja descrita como algo relacionado a desbalanceamento neuroquímico, alterações hormonais, alterações neuroanatômicas, processos inflamatórios, herança genética e outras coisas do campo da biologia. Muita pesquisa é realizada nessa direção, com a ideia de que, em algum momento, serão encontrados os correlatos perfeitos e exatos entre alterações neurológicas sutis, e as desordens do pensamento e do comportamento.
De acordo com Szasz, podemos levantar pelo menos duas ressalvas a respeito dessa posição. A primeira é que, se tomarmos por verdadeira a primazia da biologia na explicação desses comportamentos, estaríamos defendendo o ponto de que as pessoas não possam ter problemas por conta de diferenças de opiniões, valores pessoais, aspirações sociais, ou outras pressões sociais diversas. Todos os problemas da vida de alguém deveriam ser explicados então por processos neuroquímicos.
Seguindo nisso, podemos questionar: como relacionar os pensamentos e comportamentos de uma pessoa deprimida com algum defeito neurológico? Nas doenças propriamente ditas, facilmente relacionamos um sinal ou um sintoma com uma alteração de um tecido, ou a falha de um órgão. Por exemplo, a dificuldade de respiração de um asmático é explicada pela maior espessura dos seus brônquios por mecanismos inflamatórios, sendo um dos tratamentos produzir dilatação desses brônquios.
Mas como explicar, com base em um defeito neurológico, o pensamento de que o sentido da vida acabou em um rapaz deprimido que sofre porque seu casamento teve fim? Qualquer explicação nessa linha seria no mínimo insuficiente ao ser comparada com a explicação da asma pelo broncoespasmo. Em uma análise mais dedicada, qualquer explicação nessa linha seria completamente sem sentido. Seguindo na comparação, a ideia de que a administração de inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS) para alguém que está deprimido seria comparável à administração de broncodilatadores para um asmático soa equivocada também.
A segunda ressalva é que entender a depressão como doença é um erro epistemológico. Isso quer dizer que não é um mero erro de observação, e sim um erro sobre como o conhecimento é construído e organizado. O erro epistemológico da depressão como uma doença é se basear em um dualismo simétrico entre sintomas físicos (como os da asma) e mentais (como os da depressão). As características das doenças físicas são identificáveis no corpo, já as supostas doenças mentais se baseiam na maneira com que o paciente se comunica. A definição de que se essa comunicação é sinal de um problema ou não depende do julgamento do observador. O “sintoma” depressivo está intimamente ligado ao contexto social, da mesma forma que o sintoma da asma está ligado ao contexto anatômico e genético. As duas naturezas não podem ser comparáveis em uma simetria que não seja falsa ou forçada.
Então a depressão não existe?
Bem, se você leu até aqui e ficou mais ou menos convencido dos argumentos apresentados, você deve estar questionando, ou então certo de que a depressão não é uma doença. Porém, esse questionamento se aplica somente à natureza do fenômeno chamado depressão, e não a sua existência na totalidade. Dizer que a depressão não é uma doença não resulta em dizer que as pessoas não sofrem e que não precisam de ajuda. As implicações do questionamento da noção da depressão como doença nos leva a olhar para onde o problema de fato está, e aí então conseguir oferecer uma ajuda que tenha mais chances de reduzir o sofrimento.
Para encerrar, o questionamento também não leva necessariamente à conclusão de que devemos parar de usar o termo depressão. O termo, quando utilizado de uma maneira que facilite a comunicação sobre o comportamento de alguém, pode ter utilidade clínica e acadêmica.
Postado originalmente no Medium, em 17 de junho de 2021.