Cartas Sobre o Vício (I)- Ao adicto

Olá meu caro, ou minha cara. Temo que está carta te encontre em um momento de perturbação, desespero ou solidão – ou imagino que um pouco dos três. Seja pelo julgamento dos outros, pelas limitações que o vício traz para seu corpo, seu tempo e suas finanças, ou pela culpa esmagadora que aperta seu coração, talvez você se encontre agora isolado, confuso, e com pouca esperança sobre um futuro melhor. Os dias difíceis, as tentativas fracassadas, e as mágoas que os problemas trouxeram para você e para sua família podem estar te prendendo em um mar de desesperança que não te deixa sair do lugar.

Eu não vim aqui resolver o seu problema, até porque eu não posso fazer isso, mas nas próximas linhas ofereço uma conversa que talvez possa te incentivar a olhar a situação de frente ao invés de evitar pensar a respeito, e quem sabe encontrar a esperança necessária para dar início à mudança que você precisa fazer. Para esse empreendimento corajoso e um pouco dolorido, eu só peço um pouco da sua confiança e atenção.

Essa carta é construída em cima de duas ideias simples: 1) você é o maior responsável pela sua recuperação; 2) a mudança se torna mais fácil, e até automática, quando você aceita a ideia 1. Não se desanime, eu sei que é frustrante ter que assumir a responsabilidade pelo problema, principalmente depois de tudo que já te falaram sobre o seu vício.

É capaz que algumas pessoas tentaram te colocar pra baixo, ou se vingar por algo ruim que você fez. Essas pessoas te fazem se sentir incapaz de mudar, por tentarem te taxar como alguém com graves problemas de caráter, que eu e você sabemos não ser o caso. Em outro extremo, algumas pessoas te tratam com excesso de zelo e de cuidado, tentando te proteger das consequências das suas ações, e pisando em ovos quando falam com você. Essas pessoas também fazem você se sentir incapaz, te tratando como uma criança que ainda não cresceu.

Eu recuso essas duas posições. Eu não acho que você seja simplesmente uma pessoa de índole ruim que atrapalha os outros com seu vício sem se preocupar com eles, mas, por outro lado, também não acho que você seja esteja sem condições de se ajudar. Penso que você é uma pessoa com problemas, como qualquer outra, e que pode se beneficiar de alguma ajuda (familiar, profissional, ou espiritual) na sua tarefa de mudar.

Bem, o primeiro passo para poder resolver um problema é conseguir descrevê-lo de uma maneira útil. Se você está tentando parar com um vício, provavelmente você encontra agora em algum dos momentos desse ciclo: 1) estar se sentindo seguro e tranquilo; 2) começar a se sentir inquieto, chateado com alguma coisa, ou então se aproximar de algum período, dia ou situação que gatilha seu comportamento de vício; 3) passar um tempo preso entre o pensamento de se entregar e ter uma nova “situação de uso” (ou aposta, ou compra, ou pornografia, etc) ou resistir à ideia; 4) cair na tentação e decidir fazer mais uma vez; 5) se arrepender, sentir ressaca, culpa, desesperança, e sentir deprimido; e voltamos para o início de novo. Vamos resumir isso em uma imagem.

ciclo do vício

Como todo ciclo de sofrimento, essa ordem não é fixa e não tem duração estável. Pode acontecer de você pular uma etapa, como ir da tranquilidade para o uso sem pensar muito, ou então enfrentar uma fase em que o período da tranquilidade nunca exista. Cada um desses momentos pode durar alguns segundos ou semanas. O importante aqui não é tentar entender minuciosamente o seu vício, e sim perceber que o ciclo existe, e que ele é uma prisão que te impede de viver com autonomia, liberdade e segurança.

Nesse momento eu quero que você dê uma pausa na leitura, e reflita um pouco sobre como esse ciclo tem acontecido na sua vida. Você pode fazer isso olhando para imagem acima. Pense sobre quais são os momentos-chave que fazem essa roda de sofrimento girar, quais situações difíceis te empurram a se manter nessa prisão, e mais importante que tudo, pense sobre qual tem sido sua contribuição e a influência das suas escolhas pessoais. De novo, a ideia não é mergulhar em culpa e em consciência pesada, e sim perceber sua capacidade de quebrar o ciclo olhando para sua responsabilidade sobre ele. Agora tome seu tempo, reflita sobre isso, pode ser por alguns segundos ou você pode interromper a leitura para pensar um pouco durante algumas horas ou dia. Estarei te esperando para continuarmos.

Pronto? Então podemos prosseguir. Se você fez o que eu sugeri, você possivelmente viu brotar muitas emoções difíceis e contraditórias, e também se viu desviando de pensar sobre algumas coisas ou revisitar algumas memórias. Se você pulou toda a atividade, não tem problema, continue a leitura aqui comigo e qualquer coisa você volta nela depois. Observar e refletir sobre o ciclo do nosso vício é uma tarefa dolorosa, mas, ao mesmo tempo, um caminho para a libertação. As respostas estão todas aí, você só precisa de tempo, coragem e incentivo para pensar. Alguém com quem conversar sobre (seja amigo, familiar, psicólogo, médico, líder religioso, professor, ou qualquer um que esteja em posição de ajudar) acelera e facilita esse processo. Se você tem alguém (de confiança, e que te trate com respeito) para conversar, vá em frente e procure essa pessoa nessa semana, se você não tem, se apoie nessa nossa conversa por enquanto.

Alguns parágrafos atrás eu disse que você é o maior responsável pela sua recuperação, e agora é hora de retomar e desenvolver essa ideia com base no que já conversamos. Você pode explicar sua dificuldade de parar por diversas razões: “a substância é muito poderosa eu não consigo resistir à vontade de usar; minha vida é muito tediosa, ou muito puxada, ou muito solitária; tal e tal pessoa me estressa, me irrita, e me faz recair; meu vício é a única coisa que eu faço por mim, e se eu parar eu vou ficar sem nada; etc”. Todas essas explicações podem ser verdadeiras, e em uma conversa poderíamos nos alongar demoradamente sobre cada uma delas, vendo cada vez mais sentido em uma razão em particular. Mas se sustentar em qualquer uma delas traz pouca ajuda para seu propósito de começar a dar um fim nesse ciclo. Quanto mais você se alongar em trazer razões externas a você, mais você vai se sentir incapaz de fazer a mudança, ainda que seja verdade.

Agora, quando você se debruça em tentar entender qual a sua responsabilidade na manutenção do problema, se dedicando em entender quais escolhas, impulsos e ideias influenciam na manutenção desse ciclo, começa a surgir a grata esperança de que o futuro pode ser diferente. Sim, as pessoas ao seu redor influenciam e têm um papel no problema, disso eu tenho certeza, e você vai poder entender melhor o que eu penso sobre elas na próxima carta, mas agora eu e você estamos interessados na sua contribuição. Você não precisa contar para ninguém suas conclusões, é mesmo recomendável que você guarde para você suas reflexões sobre sua responsabilidade, para evitar que isso seja usado contra você futuramente e atrapalhe seu processo. A única pessoa que merece e precisa da sua mais pura honestidade é você mesmo, e essa você não pode enganar.

Neste ponto da nossa conversa, se eu consegui me conectar com você e transmitir minha ideia, você deve estar minimamente convencido e encorajado a procurar e aceitar sua parte no problema. Ainda assim, é provável que você não esteja conseguindo, como se algum tipo de cegueira ou preguiça tivessem te impedindo de olhar a situação de frente. Existem muitas razões por trás dessa dificuldade, e talvez eu volte em algumas em futuras cartas, mas hoje eu quero comentar duas: 1) o medo de perder ou abrir mão de algo importante, satisfatório ou confortável para você, e 2) a crença de que a abstinência será um período de muito sofrimento, solidão, e desconforto físico e mental. Vamos conversar sobre esses dois pontos.

A depender da amplitude do vício na sua vida hoje em dia, pode ser que a maior parte do seu tempo esteja dedicado em vivenciar o ciclo que ele promove. Em outras palavras, o vício pode ser uma das coisas que você mais faz, ou A Coisa Que Você Mais Faz. O seu corpo provavelmente está treinado a executar de maneira automática todos os movimentos necessários para conseguir o efeito da sua compulsão, e o resultado prazeroso dela pode ser uma das poucas fontes de satisfação que te restaram. Esse cenário faz você pensar que abrir mão desse hábito vai levar a uma vida completamente vazia, chata, na qual você “não tem nada o que esperar”. Para além disso, todos nós temos dificuldade em abrir mão de alguma coisa que escolhemos fazer com frequência, mesmo que gere prejuízos.

Para superar essa dificuldade, te incentivo a olhar sua vida a partir de um panorama mais amplo. Não olhe apenas para seu vício, e sim para todas as outras coisas que você está abrindo mão para o vício poder se manter. Um hábito amplo e nocivo como esse não pode se manter sem matar ou sufocar todas as outras oportunidades de alegria, prazer, propósito, satisfação e orgulho. Ficar preso em uma única coisa acabou com sua liberdade de poder escolher o que fazer e de viver e aprender coisas novas. Pense em todas as coisas que você vai recuperar ou conquistar quando o vício finalmente for embora, e então volte a procurar sua responsabilidade na manutenção dele. Faça isso quantas vezes for necessário.

Por fim, um momento para falar dela, a temida abstinência, termo esse que não se limita a descrever apenas o desconforto que nosso corpo opera quando se vê privado de uma substância que até então era tão frequente que já fazia parte do nosso “funcionamento normal”, mas que também descreve o vazio, a ansiedade e o tédio que se formam quando um recurso por vezes tão valioso para atravessar dias ruins está ausente. Sobre esse assunto, fico em uma posição delicada e desafiadora em tentar me comunicar com pessoas de demandas tão diferentes e de uma variabilidade infinita de vícios e padrões de consumo, mas existe uma regra simples. Meus pacientes quando enfrentam ou estão para enfrentar uma possível situação de abstinência quase sempre escutam de mim um lembrete: “ela passa, e mais rápido do que você possa imaginar”.

Pense na abstinência como uma bola quicando, o primeiro quique é o mais alto, mas a medida que o tempo passa (sem que uma recaída projete mais energia), a altura vai ficando cada vez menor, até que ela não pula mais. Claro, situações de abalo emocional, ou um contato imprevisto com situações que já se relacionaram ao uso (gatilhos) podem fazer com que a vontade aumente repentinamente, disso você provavelmente já sabe, e também nessas situações a abstinência tende a ser cada vez menor, desde que você permaneça no seu propósito. Em resumo, tenha paciência e confie na força do tempo e da surpreendente capacidade de adaptação que seu corpo e seu pensamento possuem.

E chegamos ao fim da nossa conversa. O assunto muito me interessa, e eu poderia ficar mais tempo por aqui, mas sei que você também precisa voltar para sua rotina, descansar, e deixar que os assuntos da conversa respirem por um tempo dentro da sua cabeça. Na próxima carta estarei conversando com seus familiares e amigos, e recomendo que você também a leia para entender um pouco mais do lado deles, sei que a relação nem sempre é harmônica, mas espero que essas conversas possam aproximar vocês.

Estou torcendo do fundo do meu coração pela sua recuperação, e espero muito que você esteja saindo dessa carta um pouco mais motivado, esperançoso e convicto da sua mudança do que entrou. Futuramente retornarei para escrever mais e conversar mais com você. Agradeço infinitamente sua confiança em ter lido esse texto até aqui, e como retribuição eu te peço apenas que compartilhe esse site com as pessoas que você acha que precisam dele.

Lembre, está tudo em suas mãos e isso é uma notícia boa. Não desista de mudar.

Com carinho, Yuri.