Cartas Sobre o Vício (II) – Aos familiares e amigos

Olá meu caro, ou minha cara. Já faz um tempo que sua família vem sendo afetada pelos hábitos e escolhas de uma pessoa importante para vocês. Dada a gravidade generalizada das consequências do vício, você e outros familiares acabaram tendo que se envolver na situação, perdendo noites de sono, tentando dar conselhos (às vezes raivosos) para o adicto, ou então se dedicando em tentar resolver as consequências financeiras, emocionais e de saúde que ele gerou para ele mesmo e para a família. A depender da sua posição na família, pode te sobrar a ingrata tarefa de ser a mediadora de conflitos entre o adicto e outros familiares que, por cansaço ou temperamento, decidiram adotar uma posição rígida sobre o problema. O acúmulo de todas essas dificuldades possivelmente te deixaram em um estado quase frequente de cansaço e preocupação, e te obrigado a se afastar um pouco das suas responsabilidades, das suas outras relações e principalmente do cuidado com você. 

Eu não vim aqui te dizer como você pode resolver o problema do vício do seu familiar e amigo, porque o único que pode resolver isso é ele próprio, mas nas próximas linhas eu espero te ajudar a reconhecer a impotência de algumas estratégias que trazem mais problemas do que solução, e te incentivar a voltar olhar mais para você, se cuidar e procurar sua própria felicidade (e consequentemente deixando o caminho livre para que o adicto possa se responsabilizar por si mesmo). 

Na carta anterior eu citei as duas maneiras que o adicto costuma ser tratado: como o grande vilão, que destrói a vida de todos pelo seu próprio prazer; ou como a grande vítima, que não consegue se ajudar e então demanda total compreensão e auxílio dos demais. Provavelmente você não consegue decidir se pensa se o seu familiar é um vilão ou uma vítima, porque o mais comum é que nossos sentimentos a respeito de alguém mudem constantemente ao longo dos dias. Pode ter acontecido de um dia qualquer você ter passado a tarde toda angustiado em pena e preocupação sobre a situação que ele está vivendo, e de noite se ver cheio de raiva depois de ter descoberto mais um tropeço dele. 

Se você está lendo esse texto, provavelmente está pensando em alguém.  Nesse momento eu quero que você se permita colocar todo seu pensamento nele ou nela. Agora imagine que alguém chega e te pergunta “Por que fulano tem esse vício?”. Tome um tempo agora e pense um pouco nessa pergunta e qual seria sua resposta. 

Uma resposta absolutamente correta para essa pergunta é impossível, mas sempre temos alguma coisa a dizer sobre as razões que pensamos determinar o vício de alguém. Se eu penso que ele é um vilão, e explico o vício dele por uma suposta falta de caráter, por ser mentiroso e irresponsável demais, vou tratá-lo com desconfiança constante, vou querer saber de tudo que ele está fazendo, vou tender a ser rígido e agressivo quando formos conversar, e que ele só vai melhorar quando sofrer o suficiente. Se por outro lado eu penso que ele é uma vítima, alguém vulnerável, incapaz e dependente, vou tratá-lo com superproteção, vou querer antecipar e resolver todos os seus problemas, vou ficar ansioso e pisar em ovos toda vez que conversar com ele, e vou pensar que para ele melhorar eu preciso manter tudo tranquilo e sob controle. Como a experiência do vício é caótica, é provável que você alterne entre esses dois modos de pensar e agir ao longo dos dias e semanas, às vezes sentindo muita raiva e sendo agressivo, às vezes sentindo muita pena e ansiedade, e sendo permissivo.

Nessa gangorra de sentimentos confusos e extremos, nos perdemos mergulhados em crises emocionais, brigas, noites mal dormidas, e em um esforço infinito e infrutífero para manter tudo tranquilo. Enquanto isso, o verdadeiro problema, o comportamento compulsivo do seu familiar, passa despercebido, e encontra nessa rotina caótica um terreno fértil para se manter. Tudo somado, a mensagem desta carta é um lembrete para você sair desse jogo intenso que o adicto te inseriu (e sejamos justos, você aceitou), retomar seu foco e seu cuidado para suas próprias dificuldades, objetivos e valores, e evitar dia após dia a tentação de se envolver integralmente em um problema que não é seu. 

Inicie já hoje, e mantenha para os próximos dias, o hábito de voltar sua atenção e energia para seus problemas, desafios e interesses pessoais, procure se dedicar em relações que você possa ter deixado de lado nos últimos tempos (por serem tranquilas e não te exigirem tanto quanto seu familiar adicto), que poderão te oferecer uma companhia de calma, acolhimento e distração. Talvez seja o momento de fazer aquela visita, ou convidar para sua casa, aquela pessoa ou pessoas que você costumava encontrar e gostar quando tudo estava mais tranquilo. Você precisa respirar um pouco longe do problema que assola sua família, e boas companhias ou boas atividades que você se dedicava antes são ótimos lugares para começar. Lembre-se: o adicto sabe se virar sem você, você tem direito de tomar um tempo lidando com outras coisas. E caso ele ache que não consegue ficar um tempo sem seu cuidado, atenção e monitoramento, já é hora dele aprender.  

Buscar mais tranquilidade no seu coração, com o suporte de pessoas e atividades interessantes, também é um caminho para que você consiga ter forças para mudar sua interação com o adicto. As fortes emoções e momentos difíceis vividos a partir do problema do vício prenderam você em reações e padrões de interação extremos que podem e precisam mudar. 

Não perca seu tempo tentando controlar a situação na força bruta. Não se desgaste e não desgaste sua relação com ele em sermões, apelos morais ou ameaças, mas também não aceite que ele passe por cima dos seus direitos, que te desrespeite, e que se aproveite da sua compaixão e boa vontade para não se responsabilizar pelos próprios problemas. Sempre que puder, evite basear seu cuidado em monitorá-lo de maneira não solicitada, ou em mexer nas coisas dele para tentar descobrir informações ou para jogar alguma coisa fora (em todos esses anos trabalhando com essa demanda, nunca ouvi dizer sobre ninguém que parou de usar qualquer coisa porque teve uma carga jogada no lixo). Monitorar demais ou jogar a bebida ou seja o que for fora vai apenas incentivá-lo a tentar esconder melhor o que anda fazendo, e fortalecer a sua ilusão de que se você se dedicar mais, em algum momento resolverá o problema o controlando. 

Evitar esses padrões de controle não significa que não tem nada que você possa fazer para ajudá-lo. Você pode ajudar o incentivando a procurar formas de se tratar do problema (com ajuda profissional, de grupos, atividades de autocuidado como esporte e exercício, e dedicação e responsabilidade com o estudo/trabalho); oferecendo sua companhia para quando ele se sentir sozinho ou precisar de apoio em alguma atividade; e principalmente tratando ele com respeito, honestidade, carinho e dignidade, de modo com que ele lembre que é uma pessoa amada e querida, e que merece viver bem. A batalha que ele precisa vencer é dura, mas saber que tem por perto alguém justo e compreensivo, forte e de coração tranquilo é o melhor que ele pode ter de você. 

Por fim, quero te lembrar que nada disso é garantia de que seu familiar ou amigo irá mudar e/ou se livrar do vício. Como eu já disse, o maior responsável pela recuperação é ele próprio. O maior conselho que eu quero exprimir nessa carta é de que você pare, pelo menos um pouco, de tentar resolver ou atenuar essa demanda que não é sua. Ele tem o caminho e as batalhas dele, e você tem as suas. O importante para mim enquanto eu converso com você é que você volte a viver sua vida. A nossa estadia na Terra é única e passageira, e todo mundo tem o direito de buscar a paz e a serenidade ao escolher viver o próprio caminho, e é isso que eu desejo para você. 

Um último adendo, tudo que eu escrevi acima foi imaginando um cenário em que a pessoa com problema é alguém que ainda guarda uma relação de carinho e certo respeito com você, uma pessoa de boa vontade que infelizmente está passando por uma situação difícil em relação a um hábito compulsivo, mas infelizmente a experiência me mostrou quem nem todo mundo é assim. Se ele é agressivo, te trata com desrespeito e abuso, o mais importante é que você se distancie e encontre meios de se manter segura. Pode ser que as semanas, meses ou anos de abuso tenham te tornado assustada e com a sensação de que está presa a esse cotidiano violento, mas a experiência também me mostra que sempre é possível encontrar esperança e conforto na relação com um grupo ou pessoa, sejam familiares, amigos, terapeutas, líderes ou grupos religiosos, grupos de ajuda mútua, e também na ou nas entidades que compõem o campo espiritual da sua fé, caso você tenha uma. Procure ajuda de alguém de confiança, exponha a situação e deixe que outros te apoiem a se fortalecer para se proteger e sair dessa situação. 

Estou torcendo do fundo do meu coração para que você consiga encontrar um pouco de paz e serenidade no meio dessa rotina confusa e ansiosa que você tem enfrentado. Espero que seu coração aflito, às vezes sufocado por culpa e preocupação, esteja agora batendo um pouco mais aliviado do que quando a leitura começou. Que nos próximos dias seu olhar esteja um pouco mais atento às suas próprias necessidades. Agradeço infinitamente sua confiança em ter lido esse texto até aqui, e como retribuição eu te peço apenas que compartilhe esse site com as pessoas que você acha que precisam dele. 

Lembre, você tem o direito de viver bem e de procurar uma vida tranquila. Não desista de se cuidar.

Com carinho, Yuri.