Olá, meu caro ou minha cara. De todos os ofícios possíveis, você escolheu o de acompanhar semanalmente pessoas que lidam com histórias difíceis, e podem estar encontrando contratempos para manter a linha sobre algumas coisas na vida. No acompanhamento de vícios e compulsões, existe um fator clínico objetivo rastreável, caótico e potencialmente mortal. “Quando ele vai parar?”, todos se perguntam. Nessa rotina de eventos caóticos, tragédias familiares e histórias com tantas versões que são impossíveis de encaixar na dinâmica tranquilizante do certo e do errado, é comum que você se sinta confuso, amedrontado e, às vezes, pense até em desistir.
Tudo somado, parece que você está em uma batalha munido apenas de uma poltrona ou uma webcam, mas acredito que, nos deixando transformar pelas experiências vividas na clínica e reconhecendo nosso lugar com todas as suas possibilidades, podemos encontrar as devidas segurança e curiosidade que nos mantém ativos e interessados na missão de facilitar a mudança para nossos pacientes. Seguindo nessa empreitada, iniciaremos a conversa de hoje olhando para você.
Todas as correntes da psicoterapia indicam que devemos olhar para aquele que se senta à nossa frente com abertura e compreensão, e que nossos esforços em definir as razões e os objetivos do problema sejam feitos a partir da sua individualidade. Mas quando o assunto são vícios, chegamos à clínica com a cabeça povoada de ideias, medos, preconceitos e experiências pessoais que se apresentam como uma neblina entre nossa dedicação e as necessidades do nosso paciente. Somando isso à cobrança, muitas vezes injusta, por produzir um grande resultado em um curto período de atendimento, olhamos para casos de vício como extremamente desafiadores, perigosos e frustrantes. Ainda que todas essas características sejam em certa medida verdadeiras, acredito que uma visão menos sensacionalista e preconceituosa, e mais racional e bem informada sobre o vício, suas causas e suas consequências nos habilita a oferecer aos nossos pacientes e seus familiares uma relação profissional segura, que se mantém estável ao atravessar as diversas possibilidades de crise e conflito que o fenômeno do vício produz.
Refletindo em torno disso ao longo de minha carreira, eu diria que o mais importante em meus primeiros anos foi reconhecer que boa parte do que eu havia aprendido sobre vícios até ali estava errado. Na vida comum dificilmente olhamos o problema do vício de frente, com abertura e compreensão. As fortes emoções, os perigos, a proibição das drogas — as jogando para a marginalidade —, a mídia sensacionalista e a avaliação moral do senso comum de que a pessoa com vício é alguém de caráter questionável já haviam moldado minha relação com o tema muito antes da minha vida profissional começar. Por isso foi — e ainda é — importante que eu tivesse o empenho e a abertura de mudar minha postura em relação ao tema, e que deixasse para trás todos os equívocos que me faziam ter uma série de receios e julgamentos por estes pacientes antes mesmo que eles se apresentassem. E o caminho para superar os preconceitos foi e sempre será o conhecimento.
Se dedicando a aprender, para sempre, tudo que você puder sobre o tema, e permitindo que este conhecimento atualize constante e globalmente sua forma de pensar, você estará cada dia mais próximo de compreender a realidade única de cada paciente que procura sua ajuda, bem como se tornará um vetor de ideias mais compreensivas, efetivas e verdadeiras a respeito do vício. Acredito que as melhores coisas a se estudar são aquelas pelas quais você sente interesse e curiosidade, mas se você não sabe por onde começar, podemos trilhar alguns caminhos.
Nos casos de abuso de substâncias, é muito importante que você aprenda sobre as características farmacológicas e comportamentais de cada uma, pois elas apresentam diferentes efeitos no uso e na abstinência, bem como diferentes padrões de acesso e consumo, além da diversas interações entre elas. Ainda sobre as drogas, tão importante quanto a farmacologia é aprender a história absurda da criminalização de algumas delas e o quanto essa decisão baseada em achismos, preconceitos e corrupção moldou, e ainda molda, o imaginário social, colocando na cabeça de usuários, familiares e profissionais de saúde ideias equivocadas e atrasadas que atrapalham muito o tratamento. Em relação ao vício em apostas, aprender sobre a engenharia comportamental que as casas de apostas usam para manter o engajamento e endividamento contínuo dos usuários mais assíduos, incentivando apostas cada vez mais arriscadas, pode trazer insights importantes em casos desafiadores. Já sobre compras compulsivas, é importante aprender como a publicidade, a facilidade de crédito e estímulos digitais constantes exploram a sensação de urgência e recompensa imediata que contribuem para os padrões impulsivos.
E acima de qualquer informação específica de cada demanda, aprenda e aplique aquilo que a psicologia tem de mais único e especial: o esforço em entender como até o mais “autodestrutivo” dos comportamentos faz sentido quando o analisamos na amplitude de uma vida. É a partir dessa inclinação que conseguimos entender como o desespero, o vazio, a vergonha, o tédio, a solidão e a impotência diante de situações ruins levam algumas pessoas a encontrar nas compulsões uma válvula de escape, uma ilusão de poder, um alívio para outros impulsos ou inseguranças, e muitas vezes até certo senso de identidade e comunidade ao poder “confraternizar” na companhia daqueles que sofrem da mesma coisa. Seguindo por esse caminho podemos avançar com o nosso cuidado, conseguindo dar o nome correto às necessidades de cada um.
É aí que está o diferencial do nosso trabalho, então não limite as possibilidades da terapia ao campo racional de tentar “ensinar” ao paciente como ele deve se comportar em relação ao vício. Querer resumir o tratamento em uma linha reta até a abstinência total é um dos efeitos colaterais da cultura proibicionista. Identificar gatilhos, organizar a rotina e traçar rotas de fuga para lidar com a abstinência são componentes importantes do tratamento, mas exagerar ao dar direções para alguém que ainda não decidiu qual caminho quer seguir, nem sabe o porque de segui-lo, é, na melhor das hipóteses, perda de tempo, e na pior delas uma forma sutil (ainda que bem intencionada) de dizer que o pior desafio da vida dele é algo simples de se resolver.
Já me vi algumas vezes sustentando o diálogo nesse campo superficial para evitar o contato profundo com o sofrido campo dos afetos, das memórias ruins e da desesperança. Nessa compreensível covardia, além de fugir do propósito de meu remunerado trabalho, acabo também ensinando um modelo de como evitar o Assunto Difícil, e facilito o caminho de uma resistência dura de romper. Uma conversa prolongada sobre meios de evitar o acesso ao dinheiro e a todas possibilidades de recaída que ele fornece tem alguma utilidade, mas perde o seu valor quando é evocada por qualquer uma das partes para ocupar o tempo precioso de conversar sobre aquela mágoa que ainda permanece, sobre a culpa que aperta o peito, ou sobre o medo de não conseguir encarar a vida dura sem o apoio caótico, mas familiar, do vício.
Lembre-se, o paciente já chega na primeira sessão munido de alguma disposição para mudar e de algumas razões pessoais para encontrar o caminho. Ele também carrega em sua experiência de vida diversas memórias, sentimentos e sensações ruins que lhe sinalizam o quanto o vício degrada suas relações, sua saúde e sua autoestima. Mas até te encontrar pode ser que ele nunca tivera a oportunidade de conversar sobre tudo isso de maneira sincera e segura, na presença de uma companhia tranquila, responsável e com conhecimento sobre o assunto. Considerando tudo isso, para muito além de dizer o que é certo e o que é errado, ou de decidir por ele o que pode e o que não pode, você também pode dedicar seu acompanhamento em mantê-lo engajado e sensível às necessidades e desafios das mudanças que ele espera conseguir fazer, o ajudando a entender como o vício afeta toda sua rede de relações e como ele é afetado por ela, devolvendo-lhe o grato senso de responsabilidade por suas escolhas.
Por fim, quero voltar a conversa para você, para te dizer que, apesar de toda e bem vinda empatia que você despende aos pacientes e seus familiares ser de suma importância, é bom que ela não supere a empatia e preocupação dedicadas a si mesmo. Ser psicólogo é naturalmente se envolver ou ser envolvido em inúmeras relações que crescem em número e intensidade a cada semana. Fico triste em admitir, mas nem sempre toda a boa vontade e responsabilidade que você entrega retorna a você.
No lidar com tantas pessoas é comum que vez ou outra te tratem com desrespeito, tentem explorar sua boa vontade ou projetem em você frustrações pessoais ou com terceiros, sobre as quais você não tem responsabilidade. Mas calma, você não precisa ficar paranóico ou desconfiado, apenas atento. Mais do que isso, é importante que você se permita reagir, de forma empática porém firme, àqueles que de alguma forma compreenderam mal o seu trabalho ou tentaram tirar vantagem do profissional cuidadoso que você é. E caso seja lá quem for não entenda ou não queira entender os motivos do seu desconforto, e não se corrija na postura que oferece a você, não se obrigue a continuar dando murro em ponta de faca. Várias pessoas te respeitam, te admiram e querem o seu bem, confie nelas e faça o necessário para proteger sua saúde e sua segurança para continuar oferecendo o melhor a quem reconhece isso.
Lembre-se, você foi muito corajoso em aceitar esse lugar e é preciso lembrar de se orgulhar todos os dias por ter feito essa escolha. Tomando emprestado o Salmo 121, quero te dizer que o psicólogo que é correto, que trabalha com boa vontade, dedicação e sensibilidade, nunca fracassará, mesmo quando os desafios da vida de outro infelizmente estiverem posicionados para além daquilo que nosso ofício poderia influir. Ainda que eu não te conheça, saiba que eu te respeito e te admiro por escolher todos os dias se abrir às inesperadas e desafiadoras experiências diversas que o trabalho nos traz.
Com carinho, Yuri.