“Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se afastou numa representação.”
“O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens.”

Essas são frases do livro “A Sociedade do Espetáculo” (1967), no qual Debord apresenta sua teoria sobre como o capitalismo moderno transformou a vida em representação. As relações humanas e autênticas produzidas pela experiência direta deram lugar a imagens e aparências. Nos quase 60 anos que separam a publicação do Debord e esse artigo, essa tendência se acelerou e alcançou seu auge.
As experiências (viagens, passeios, esporte, arte) não são primariamente vividas, mas sim registradas e exibidas. As celebrações são meticulosamente encenadas, não pela construção de sentido e significado dos seus participantes com seus ritos, mas pelos ditames momentâneos dos quais não queremos ficar de fora. E as mercadorias não são mais consumidas pela sua utilidade prática, seu conforto ou sua capacidade de estimular nossos sentidos, mas pela identidade e estilo de vida que elas representam.
Nessa acelerada desconexão entre os humanos, a Psicologia, em especial a psicologia clínica, tem se afastado do seu papel de ser o refúgio de escuta e cuidado sobre o que vai mal na nossa sociedade, para se transfigurar em uma entidade espetacular. Somando isso ao status que a área ocupa de guardiã do conhecimento sobre a ética e os costumes, a psicologia é perigosamente cooptada para acelerar e justificar a lógica do espetáculo.
Ao psicólogo, parece não bastar mais oferecer “apenas” a escuta atenta, a empatia sincera, sua personalidade verdadeira, e o conhecimento técnico e teórico adquirido em anos de estudo. Ele é forçado a deixar tudo isso em segundo plano, e dedicar seus esforços a decifrar e se envolver com a linguagem das imagens espetaculares. A imagem da autoridade vale mais (inclusive financeiramente) que o exercício do cuidado em si.
A sua personalidade autêntica e suas habilidades interpessoais únicas se tornam secundárias, em primazia da aparente performance espetacular, com critérios que mudam a cada semana. Postagens com designs rebuscados e a força de viralização valem mais que a profundidade do texto, frases de impacto que não precisam de um sentido real, mas apenas transmitir uma suposta autoridade, e uma constante e dedicada exibição de disciplina em seja qual for o mais alto grau de costume vigente no momento em dada comunidade (exercício, alimentação, ciência, organização, ferramentas tecnológicas avançadas, e contrariando tudo isso, a dita vulnerabilidade).
O espetáculo também tem a força de atravessar as paredes dos consultórios. A vida do cliente, em todos os seus pormenores, assim como a própria interação real clínico-cliente são transformados forçadamente em palavras que servem como mercadoria (diagnósticos, síndromes, e conceitos da moda). A psicoterapia, acelerando uma tendência de 40 anos atrás, é cada vez mais apresentada em modelos resumidos em siglas e sub-siglas, nas quais uma matriz infinita de influências são engessadas e empacotadas em mercadorias. Tendência facilmente captada na observação de um sem-número de produtos que prometem enquadrar toda experiência humana e o acompanhamento do sofrimento, em uma estrutura rígida e quantificada.
Os Grandes Nomes da área, antigamente figuras autênticas, que encerraram sua contribuição em vidas comuns de classe média, sem deixar grandes fortunas a suas famílias, no presente são verdadeiros magnatas, fazendo fortuna com a espetacularização da psicoterapia, na forma de livros, manuais, certificações, workshops caríssimos, institutos com marca registrada e franquias de terapia. Dinheiro suficiente para que “comprassem” a posse das palavras espetaculares da nossa área e da nossa época (ciência, dopamina e serotonina, inteligência emocional, mindfulness, ansiedade, depressão, TDAH, autocuidado, autoestima, burnout, narcisismo e etc). Com o controle dessas palavras, figuras nacionais e internacionais se mantém no poder simbólico, e dominam a vida de uma geração de terapeutas (que penam na linha de frente enquanto os Grandes Nomes vivem em abundância de poder e riqueza, e evitam vivenciar o cotidiano difícil do consultório, que insistem que sabem ensinar).
O saber clínico se transmuta em uma mercadoria simbólica, esvaziada de sentido, e genérica o suficiente para ser facilmente digerida. Essas propostas, mais do que reais avanços no cuidado pelo acúmulo de pesquisa e conhecimento, são apenas mercadorias da linguagem espetacular, que deturpam a relação clínica em favor do enriquecimento, popularidade e força política dos seus criadores e divulgadores.
É vetado que o psicólogo se dedique em construir sua própria relação com a psicoterapia, baseada em suas experiências de vida, sua comunidade, e nas necessidades únicas de seus pacientes. Para adentrar as regras desse jogo, o terapeuta deve abrir mão de si e da sua vida em nome do espetáculo.
Mas, sendo a psicologia a ciência da vida e da experiência, como poderia o psicólogo aprender alguma coisa deixando de olhar para dentro e ao redor, para se dedicar ao culto da psicologia espetacular?
O tom alarmista desse texto não pretende ser nenhuma forma de derrotismo. O objetivo, ousado dada a simplicidade e tamanho do texto, é incentivar os colegas a se libertarem do jogo do espetáculo que tem tornado a psicologia tão cinza e cansativa, com seu excesso de palavras vazias e encenações. A psicoterapia, mesmo em suas experiências mais difíceis, deveria sempre ser apaixonante e construída continuamente por seus participantes.
É preciso acabar com o ressentimento e o julgamento entre nós, os operários da psicologia que nos dedicamos arduamente em um objetivo comum de tornar o mundo mais justo e a humanidade mais livre. É preciso que voltemos a nos envolver e dar atenção para nossa comunidade, sejam nossos colegas de turma, nossos professores, vizinhos de consultório, os amigos que a internet nos trouxe. Nossos iguais, com quem podemos trocar desabafos e ideias sobre os desafios que enfrentamos. E é preciso, mais do que nunca, que nos dediquemos a ouvir nossos pacientes na forma singular que ele se expressa e entende seu mundo, e que a solução dos seus problemas seja construída em conjunto, tendo por base sua realidade, sua comunidade e o sentido que ele escolheu para a própria vida.
A você, amigo psicólogo ou estudante de psicologia, desejo força, consciência e sabedoria para que consiga sempre que possível expurgar a lógica do espetáculo da maneira com que você pensa sua carreira, conduz seus atendimentos e consome os materiais necessários para sua formação. Que você consiga sempre retornar à simplicidade potente do encontro verdadeiro que conduz com cada paciente, e que, acima de tudo, consiga sentir orgulho, segurança e paixão pelo ofício nobre e necessário que você se propôs a atuar.
Postado originalmente no Medium, em 27 de outubro de 2025.