Cartas sobre o tratamento do vício – Apresentação

Quanto mais eu envelheço mais vejo como comum e doloroso o problema do vício. Mudam os anos, mudam as substâncias, as atividades, as formas de consumir e de se entorpecer, mas não muda o sofrimento e a solidão dos adictos, o desespero da família, e nem os desafios de tentar oferecer um caminho para recuperação de quem procura a minha ajuda. Em breve fará 10 anos que eu atuo no acompanhamento das mais diversas dependências, que eu comecei como estagiário aos 20 anos, e fico surpreso em admitir que do começo até aqui, o desafio só pareceu cada vez mais complexo, porque a experiência me mostrou que cada pessoa é única na forma de existir com o seu problema, e cada família tem sua história, seu conceito de cuidado, e seus conflitos a resolver.

Apesar de boa parte da minha experiência ser com problemas relacionados ao uso de substâncias, escrevo o material abaixo pensando sobre todas as pessoas que estão presas em um ciclo compulsivo. Se você tem, ou conhece alguém, problemas com apostas, compras, trabalho, sexo, comida, ou até as compulsões mais individuais e únicas que apenas a própria pessoa que sofre (e alguém que se a ouça atentamente) pode entender, creio que, pelo menos, algumas linhas abaixo podem te ajudar a refletir melhor sobre sua dificuldade.

Perceber o problema como mais complexo e delicado do que quando eu era apenas um estudante, paradoxalmente me deixou mais confiante no meu trabalho com ele. Penso que isso significa que eu esteja me tornando, ano após ano, mais sensível à realidade do problema, e, espero eu, mais atento às verdadeiras necessidades que adictos, familiares e profissionais da saúde (as três pontas do triângulo do tratamento) têm ao se relacionarem com esse tema. Tudo somado, escrevo essas cartas com a esperança de conseguir ajudar o leitor a ter uma visão mais ampla do quadro do vício, e de ajudar cada uma das pontas a se sentir mais compreendida e a ter mais empatia e boa vontade com as outras duas. No momento mágico em que cada ator do tratamento se sente ouvido, ao mesmo tempo em que se responsabiliza por seu papel no problema e em sua solução, as coisas simplesmente funcionam e caminham na direção da vida serena que todos buscamos. Então vamos para nossa primeira carta.

Clique aqui: Carta 1 – Ao adicto.